“The Shallows” de Nicholas Carr – Capítulos 1 e 3.

“McLuhan declarou que a “mídia elétrica” do século XX – telefone, rádio, cinema, televisão – estava rompendo a tirania do texto sobre nossos pensamentos e sentidos. Nossos egos, isolados e fragmentados, presos por séculos à leitura privada de páginas impressas, estavam se tornando inteiros novamente, fundindo-se no equivalente global de uma aldeia tribal.”

“Estávamos nos aproximando da “simulação tecnológica da consciência, quando o processo criativo do conhecimento será coletiva e corporativamente alargado a toda a sociedade humana”.

“O meio é a mensagem”. O que foi esquecido em nossa repetição desse aforismo enigmático é que McLuhan não estava apenas reconhecendo, e celebrando, o poder transformador das novas tecnologias de comunicação.”

“A tecnologia de uma mídia, por mais surpreendente que possa ser, desaparece por trás de tudo o que flui através dela – fatos, instrução, entretenimento, conversa.”

“Como nossa janela para o mundo e para nós mesmos, uma mídia popular molda o que vemos e como o vemos – e por fim, se a usarmos bastante, muda quem somos, como indivíduos e como sociedade.”

“Os efeitos da tecnologia…alteram “padrões de percepção de forma constante e sem qualquer resistência”

“…Os produtos da ciência moderna não são em si mesmos bons ou maus; é o modo como são utilizados que determina seu valor”. McLuhan ridicularizou a ideia, repreendendo Sarnoff por falar com “a voz do sonambulismo atual”. Toda nova mídia, McLuhan concluiu, nos modifica.”

“Como McLuhan sugeriu, as mídias não são apenas canais de informação. Elas fornecem o material do pensamento, mas também moldam o processo de pensamento.”

“O que está claro, entretanto, é que para a sociedade como um todo a Internet tornou-se, em apenas vinte anos, desde que o programador Tim Berners-Lee escreveu o código para a World Wide Web, a principal mídia comunicativa e informativa.”

“A mente linear, calma, concentrada, sem distrações está sendo substituída por um novo tipo de mente que quer e precisa obter e distribuir informações em curtos rebentos disjuntos e por vezes sobrepostos – quanto mais rápido, melhor.”

“O computador, comecei a perceber, era mais que apenas uma ferramenta que fazia o que a gente mandasse fazer. Era uma máquina que, de maneira sutil e inconfundível, exercia influência sobre a gente.”

“Em 2007, uma serpente de dúvida surgiu no meu infoparaíso. Comecei a notar que a Internet estava exercendo uma influência muito mais forte e ampla sobre mim do que meu velho PC. Não era certo gastar tanto tempo olhando uma tela de computador. Não era certo mudar tantos hábitos e rotinas à medida que ficava mais acostumado e dependente de sites e serviços da web. O próprio modo de funcionar do meu cérebro parecia estar mudando. Foi então que comecei a me preocupar com a incapacidade de prestar atenção a qualquer coisa por mais de um minuto.”

“Os avanços históricos não se limitaram a espelhar o desenvolvimento da mente humana. Ajudaram a impulsionar e orientar o próprio avanço intelectual que documentava. O mapa é um meio que não só armazena e transmite informação, mas também expressa um modo particular de ver e pensar. Com o progresso da cartografia, a propagação de mapas também disseminou um modo peculiar de perceber e dar sentido ao mundo.”

“Quanto mais e com mais intensidade as pessoas usavam os mapas, mais suas mentes passaram a entender a realidade nos termos dos mapas.”

“O que o mapa fez pelo espaço – traduzir um fenômeno natural numa concepção artificial e intelectual, uma outra tecnologia, o relógio mecânico, fez pelo tempo.”

Como a tecnologia implica mudanças no homem, na sociedade, na cultura

“Se a proliferação de relógios públicos mudou a maneira como as pessoas trabalhavam, compravam, jogavam e se comportavam como membros de uma sociedade cada vez mais controlada, a disseminação de ferramentas mais pessoais para contar o tempo – relógios de parede, de bolso e, um pouco mais tarde, de pulso – teve consequências mais íntimas. O relógio tornou-se pessoal, como Landes escreve, “um companheiro sempre visível, sempre audível e monitor”.

Continuamente lembrando seu dono “do tempo decorrido, do tempo gasto, do tempo perdido”, tornou-se tanto “estímulo como chave para a realização e a produtividade pessoal”. A “personalização” do tempo precisamente medido “foi um grande estímulo ao individualismo, aspecto cada vez mais importante da civilização ocidental”.”

“O relógio mecânico mudou a maneira como nos vemos. E, como o mapa, mudou a maneira como pensamos. Quando o relógio redefiniu o tempo como uma série de unidades de igual duração, nossa mente começou a enfatizar o trabalho metódico mental de divisão e medição.

Começamos a ver, em todas as coisas e fenômenos, as peças que compunham o todo, e então começamos a ver as peças da qual as peças são feitas.”

“Toda tecnologia é uma expressão da vontade humana. Com nossas ferramentas, buscamos ampliar nosso poder e controle sobre as circunstâncias – a natureza, o tempo, a distância, um sobre o outro. Nossas tecnologias podem ser divididas, grosso modo, em quatro categorias, de acordo com como completam ou ampliam nossas capacidades nativas. Um conjunto, que abrange o arado, a agulha de costura e o caça, amplia nossa força física, destreza ou flexibilidade. Um segundo conjunto, que inclui o microscópio, o amplificador e o contador Geiger, amplia o alcance e a sensibilidade de nossos sentidos. Um terceiro grupo, que vai das tecnologias como o açude e a pílula anticoncepcional ao milho geneticamente modificado, permite-nos mudar a natureza para melhor servir nossas necessidades e desejos.

O mapa e o relógio pertencem à quarta categoria, melhor chamada, para usar um termo empregado em sentidos ligeiramente diferentes pelo antropólogo social Jack Goody e pelo sociólogo Daniel Bell, de “tecnologias intelectuais”. A categoria inclui todas as ferramentas que usamos para estender ou apoiar nossos poderes mentais – para encontrar e classificar informações, formular e articular ideias, compartilhar know-how e conhecimento, fazer medições e realizar cálculos, expandir a capacidade de nossa memória.”

“Como as histórias do mapa e do relógio bem ilustram, as tecnologias intelectuais, quando caem no gosto popular, muitas vezes promovem à população em geral novas formas de pensar ou estender as formas tradicionais de pensar antes limitadas a uma pequena elite. Em outras palavras, toda tecnologia intelectual incorpora uma ética intelectual, um conjunto de suposições sobre como a mente humana funciona ou deveria funcionar. O mapa e o relógio compartilham uma ética semelhante. Ambos colocaram uma nova ênfase na medição e na abstração, na percepção e na definição de formas e processos além dos aparentes aos sentidos.”

“A ética intelectual de uma tecnologia raramente é reconhecida por seus inventores. Eles normalmente estão tão empenhados em resolver um problema particular ou em desembaraçar um dilema científico ou de engenharia que não veem a extensão das implicações de seu trabalho.”

“Nossos antepassados não desenvolveram ou utilizaram os mapas para reforçar sua capacidade de pensamento conceitual ou para revelar as estruturas ocultas do mundo. Nem fabricaram os relógios mecânicos para estimular a adoção de um modo mais científico de pensar. Aqueles eram subprodutos das tecnologias.”

“Karl Marx deu voz a essa visão quando escreveu: “o moinho de vento contribuiu com a sociedade com o senhor feudal; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial”. Ralph Waldo Emerson é mais conciso: “As coisas estão na sela / E carregam a humanidade”. Na expressão mais extrema da visão determinista, os seres humanos tornam-se pouco mais do que “os órgãos genitais do mundo das máquinas”, como McLuhan memoravelmente escreveu em “Amante dos Gadgets”, capítulo de Os meios de comunicação. Nosso papel essencial é produzir ferramentas cada vez mais sofisticadas para “fertilizar” as máquinas como as abelhas fecundam as plantas – até que a tecnologia desenvolva a capacidade de se reproduzir por conta própria. Nesse ponto, nós seremos dispensáveis.”

“No outro extremo estão os instrumentalistas – pessoas que, como David Sarnoff, minimizam o poder da tecnologia, crendo que as ferramentas são artefatos neutros, totalmente subservientes aos desejos conscientes de seus usuários. Nossos instrumentos são os meios que usamos para alcançar nossos objetivos, pois não tem fins próprios. O instrumentalismo é a opinião mais difundida da tecnologia, não menos porque é a visão que preferimos que seja a verdadeira.”

““Se a experiência da sociedade moderna nos mostra alguma coisa”, observa o cientista político Langdon Winner, “é que as tecnologias não são meros auxiliares à atividade humana, mas sim forças poderosas agindo para reformular essa atividade e seu significado”. Embora raramente estejamos conscientes desse fato, muitas das rotinas de nossas vidas seguem caminhos estabelecidos pelas tecnologias que entraram em uso bem antes de termos nascido.”

“É um exagero dizer que a tecnologia avança de forma autônoma – nossa adoção e uso das ferramentas são fortemente influenciados por considerações econômicas, políticas e demográficas – mas não é um erro dizer que o progresso tem sua própria lógica, que nem sempre é coerente com as intenções ou desejos dos fabricantes e dos usuários da ferramenta. Às vezes, nossas ferramentas fazem o que mandamos; outras vezes, nós é que nos adaptarmos às exigências delas”.”

“Qualquer experiência repetida influencia nossas sinapses, as mudanças provocadas pelo uso recorrente das ferramentas que estendem ou complementam nosso sistema nervoso devem ser particularmente acentuadas. E mesmo que não possamos documentar ao nível físico as mudanças no pensamento que ocorreram em um passado distante, podemos usar substitutos no presente. Vemos, por exemplo, evidências diretas do processo contínuo de regeneração e degeneração mental nas alterações cerebrais que ocorrem quando uma pessoa cega aprende a ler

Braille. Esta, afinal, é uma tecnologia, um meio informativo.”

“O mapa e o relógio mudaram indiretamente a linguagem, sugerindo novas metáforas para descrever os fenômenos naturais. Outras tecnologias intelectuais mudam a linguagem de maneira mais direta e profunda, por realmente alterar nossa forma de falar e ouvir, de ler e escrever. Elas podem ampliar ou comprimir nosso vocabulário, modificar as normas de dicção ou a ordem das palavras, ou incentivar sintaxes simples ou complexas.”

“A palavra escrita é “uma receita não para a memória, mas para a lembrança. Não é sabedoria o que ofereces a teus discípulos, mas apenas sua aparência”. Quem confiar na escrita para obter conhecimento “parecerá saber muito, enquanto na maior parte não sabe nada”. Será “preenchido, não com sabedoria, mas com o conceito de sabedoria.”

“Em uma cultura puramente oral, o pensamento é regido pela capacidade da memória humana. O conhecimento é o que se consegue lembrar, e o que se lembra é limitado ao que se pode guardar na mente. Através dos milênios de história pré-alfabetizada, a linguagem evoluiu para ajudar o armazenamento de informações complexas em memória individual e tornar mais fácil a troca de informações com outras pessoas através da fala. “O pensamento sério”, escreve Ong, foi por necessidade “entrelaçado aos sistemas de memória”. A dicção e a sintaxe tornaram-se altamente rítmicas, afinadas para o ouvido, e as informações foram codificadas em sequências comuns de frases que hoje chamamos de clichês – tudo para ajudar a memorização.”

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