O Culto do Amador

 O Culto do Amador de Andrew Keen

“A inspiração por trás deste livro não vem de Aldous, mas de seu avô, T.H. Huxley, o biólogo evolucionista do século XIX e autor do “teorema do macaco infinito”. Segundo a teoria de Huxley, se fornecermos a um número infinito de macacos um número infinito de máquinas de escrever, em algum lugar alguns macacos acabarão criando uma obra-prima — uma peça de Shakespeare, um diálogo de Platão ou um tratado econômico de Adam Smith.”

“A tecnologia de hoje vincula todos aqueles macacos a todas aquelas máquinas de escrever. Com a diferença de que em nosso mundo Web 2.0 as máquinas de escrever não são mais máquinas de escrever, e sim computadores pessoais conectados em rede, e os macacos não são exatamente macacos, mas usuários da Internet. E em vez de criarem obras-primas, esses milhões e milhões de macacos exuberantes – muitos sem mais talento nas artes criativas que nossos primos primatas – estão criando uma interminável loresta de mediocridade.”

“No cerne desse experimento de autopublicação por uma infinidade de macacos está o diário na Internet, o onipresente blog.”

“Os blogs tornaram-se tão vertiginosamente infinitos que solaparam nosso senso do que é verdadeiro e do que é falso, do que é real e do que é imaginário.”

“Quando digitamos palavras no Google, estamos de fato criando algo chamado “inteligência coletiva”, a sabedoria total de todos os usuários do Google. A lógica do mecanismo de busca, que os tecnólogos chamam de algoritmo, reflete a “sabedoria” das massas. Em outras palavras, quanto mais pessoas clicam num link resultante de uma busca, mais provável esse link aparecer em buscas subsequentes. O mecanismo de busca é uma união dos 90 mi de perguntas que fazemos coletivamente ao Google todo dia; em outras palavras, ele só nos diz o que já sabemos.”

“Em vez de usá-la para buscar notícias, informação ou cultura, nós a usamos para sermos de fato a notícia, a informação, a cultura.”

“A mídia antiga está ameaçada de extinção. Mas, o que tomará seu lugar? Ao que tudo indica, serão os novos e incrementados mecanismos de busca, os sites das redes sociais e os portais de vídeo da Internet. Cada nova página no MySpace, cada nova postagem num blog, cada novo vídeo no YouTube equivale a mais uma fonte potencial de renda com anúncios perdida pela mídia convencional.”

“Os macacos assumem o comando. Diga adeus aos especialistas e guardiões da cultura de hoje – nossos repórteres, âncoras, editores, gravadoras e estúdios de Hollywood. No atual culto do amador, os macacos é que dirigem o espetáculo. Com suas infinitas máquinas de escrever, estão escrevendo o futuro. E talvez não gostemos do que ele nos reserva.”

Capítulo 1 – A Grande Sedução

“A nova Internet tinha a ver com música feita pelo próprio usuário, não com Bob Dylan ou os Concertos de Brandenburgo. Público e autor haviam se tornado uma coisa só, e estávamos transformando cultura em cacofonia.”

“A revolução da Web 2.0 disseminou a promessa de levar mais verdade a mais pessoas — mais profundidade de informação, perspectiva global, opinião imparcial fornecida por observadores desapaixonados. Porém, tudo isso é uma cortina de fumaça. O que a revolução da Web 2.0 está realmente proporcionando são observações superficiais do mundo, em vez de uma análise profunda, opinião estridente, ou um julgamento ponderado.”

“A verdade de uma pessoa torna-se tão “verdadeira” quanto a de qualquer outra. Hoje a mídia está estilhaçando o mundo em um bilhão de verdades personalizadas, todas parecendo igualmente válidas e igualmente valiosas.”

“Os motores de busca como o Google sabem mais sobre nossos hábitos, nossos interesses, nossos desejos do que nossos amigos, nossos entes queridos e nosso psiquiatra juntos. Mas ao contrário do 1984, este Grande Irmão é muito real. Temos de confiar que não revele nossos segredos, uma confiança que, como veremos, já foi traída repetidas vezes. Paradoxalmente, o Santo Graal dos anunciantes em todo o mundo plano da Web 2.0 é conseguir a confiança dos outros. Isso está deixando de cabeça para baixo a indústria da publicidade convencional.”

“Nossas atitudes com relação a “autoria” também estão passando por uma mudança radical, como resultado da cultura democratizada da Internet de hoje. Em um mundo no qual plateia e autor são cada vez mais indistinguíveis, e onde a autenticidade é quase impossível de ser verificada, a ideia original de autoria e propriedade intelectual tem sido seriamente comprometida. Quem é o “dono” do conteúdo criado pelos personagens de filme de ficção no MySpace? Quem é o “dono” do conteúdo criado por um anônimo grupo de editores da Wikipédia? Quem é o “dono” do conteúdo publicado por blogueiros, seja ele originário de porta-vozes das empresas ou de artigos no NYT? Esta definição nebulosa de propriedade, agravada pela facilidade como podemos copiar e colar o trabalho de outras pessoas para fazê-lo parecer como se fosse nosso, resultou em uma nova permissividade preocupante sobre a propriedade intelectual.”

O Custo da Democratização

“O culto do amador tornou cada vez mais difícil determinar a diferença entre o leitor e o escritor, o artista e o porta-voz, arte e propaganda, amadores e especialistas. O resultado? A queda da qualidade e da confiabilidade das informações que recebemos, o que desvirtua, ou até corrompe descaradamente nossa conversa cívica nacional. Mas talvez as maiores vítimas da revolução da Web 2.0 sejam as empresas reais com produtos reais, funcionários reais e acionistas reais, como discutirei nos capítulos 4 e 5. Cada gravadora extinta, repórter de jornal despedido ou livraria independente falida é uma consequência do conteúdo grátis gerado pelos usuários na Internet – da publicidade gratuita do Craigslist aos vídeos de música gratuitos do YouTube, à informação gratuita da Wikipédia.”

“Você – ou melhor, a inteligência colaborativa de dezenas de milhões de pessoas, você conectado – a continuamente cria e filtra novas formas de conteúdo, consagrando o útil, o relevante, o divertido e rejeitando o resto… Em todo caso, você se tornou parte integrante da ação como membro do público agregado, interativo, auto-organizado, autoentretenido.”

“A Cauda Longa praticamente redefine a palavra “economia”, deslocando-a da ciência da escassez para a ciência da abundância, um mercado promissor e infinito no qual “ciclamos” e reciclamos nossa produção cultural para o conteúdo de nossos corações.”

“Sem o cultivo de talentos, não haverá mais hits, pois o talento que os cria nunca é cultivado ou não tem permissão para brilhar.”

“Mas quanto mais conteúdo autocriado é despejado na Internet, mais difícil fica distinguir o bom do ruim – e fazer dinheiro com dele.”

“O grande desafio do mercado da cauda longa de Anderson está em encontrar o que ler, ouvir ou assistir. Se você acha que o sortimento em sua loja de discos é pequeno, espere até a cauda longa desenrolar sua extensão infinita. Arrastar-se pela blogosfera, ou os milhões de bandas no MySpace, ou as dezenas de milhões de vídeos no YouTube procurando um ou dois blogs, músicas ou vídeos de real valor não é viável para aqueles de nós com uma vida ou um trabalho. O único recurso que é desafiado por esta longa cauda de conteúdo amador é o nosso tempo, o recurso mais limitado e precioso de todos.”

“Chris Anderson está certo ao afirmar que o espaço infinito da Internet vai dar cada vez mais oportunidades para os nichos, mas o lado negativo é que isso vai garantir que tais nichos gerarão menos receitas. Quanto mais especializado o nicho, mais estreito o mercado. Quanto mais estreito o mercado, mais curto o orçamento de produção, o que compromete a qualidade da programação, reduzindo ainda mais o público e alienando os anunciantes.”

“Na era da autopublicação, ninguém sabe se você é um cão, um macaco ou o coelhinho da Páscoa. Todo mundo está tão ocupado se autodifudindo (egocasting), imerso demais na luta darwiniana pela compartilhamento da mente, para dar ouvido ao outro.”

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